quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Avaliação de Recursos Educativos Online

Passada a dificuldade em encontrar recursos educativos online (REO) na área que pretendemos, torna-se necessário aferir da sua qualidade, avaliando-os criticamente.

Segundo o Ministério da Educação da Colômbia Britânica, Canadá (2002), existem vários critérios de acordo com os quais é possível avaliar um REO, como a qualidade do seu conteúdo, isto é, se está atualizado de modo a não perder o seu valor intrínseco ou se não contém erros, incoerências ou incorreções gramaticais
Acrescente-se, ainda que, dado tratar-se de recursos de caráter educativo, deverão servir o estabelecido nos programas oficialmente aprovados, muito embora seja possível recorrer a REO de valor comprovado, sem que estes estejam em sintonia com os programas das diferentes disciplinas, já que podem, por exemplo, estar aptos a orientar/ajudar os alunos a adquirir/melhorar hábitos de estudo e trabalho, sendo transversais aos curricula. Penso que o fundamental nos REO, mais do que se submeterem a questões curriculares, é permitirem mais e melhores aprendizagens. Ora, tal só será possível se os REO estiverem adequados à faixa etária dos alunos, com linguagem e grau de exigência apropriados.

Um dos critérios apresentados (ME, British Columbia, 2002) pode, a meu ver, gerar mais dificuldades que soluções: os REO devem apresentar, de modo explícito, os objetivos que servem. Ora, nem sempre esta explicitação está clara ou pode mesmo dar-se o caso de os objetivos apresentados não serem os únicos possíveis, isto é, o mesmo REO pode servir diferentes propósitos, alguns dos quais tendo “escapado” aos autores do recurso. Por outro lado, recursos online podem servir propósitos educativos sem se declararem como tal, o que não os torna menos relevantes.

Na mesma linha de pensamento, o critério 29 é ambicioso ao definir um bom REO aquele que inclui não só instruções de atividades para alunos e professores, como a bibliografia de apoio e informação técnica (no caso dos REO digitais). Compreendo que seja importante a inclusão destes elementos, mas se formos rígidos quanto à seriação dos RE neste aspeto, ficamos com um leque de opções muito restrito.

Um dos aspetos que me parecem mais interessantes enquanto critério de seleção de REO é o da abordagem inovadora (critério 25). Tendo em conta que as novas gerações de alunos são cada vez mais difíceis de motivar, de cativar para a aprendizagem, um REO inovador, criativo pode ser o elemento chave desencadeador para o desenvolvimento de um processo interessante e enriquecedor. Mesmo com recursos offline, basta uma imagem ou mesmo um pequeno excerto de texto para desencadear o fio condutor desejado de ideias.

Mas os critérios sociais de avaliação de um REO são, para mim, os mais interessantes pois devem ter em conta a diversidade do público estudantil, respeitando as suas convicções, orientação sexual, ascendência, etc… Deste modo, são claramente de evitar todos os REO que apresentem estereótipos negativos, conteúdo violento, referências discriminatórias ou favorecimento de ideologias. São de preferir REO que sejam multiculturais, passíveis de gerar um debate construtivo e que promovam a reflexão e o pensamento crítico.

Dowson (2011) acrescenta que o valor de um REO também depende da reputação do autor ou da instituição que o produziu, o que não deixa de ser verdade. Mais facilmente nos disponibilizamos para dar atenção a um RE que seja disponibilizado por uma instituição superior ou por um autor com reputação positiva no campo educativo. Mas isto não pode ser uma chancela restritiva, pois muitos autores relativamente desconhecidos podem lançar online recursos de valor educativo, movidos pelo prazer de partilhar ou mesmo de projetarem a sua imagem na Web, construindo um perfil profissional. A questão problemática reside na necessidade de pesquisar e encontrar bons REO.

Maria Pinto (2005) salienta que esta busca pela qualidade se torna ainda mais pertinente tendo em conta a diversidade de informação que circula online, pelo que o grau de exigência deve igualmente aumentar, no sentido de uma certificação dos recursos disponíveis (que pode servir igualmente os interesses de reconhecimento das instituições que os produzem).
Todos temos consciência de que quanto maior é a oferta, maior deve ser o cuidado na escolha dos REO que, de facto, estejam de acordo com uma série de critérios. Maria Pinto (2005) reconhece a existência de alguns aspectos em função dos quais nos podemos guiar para distinguir o “trigo do joio”, como o prestígio do autor/instituição, a atualização do recurso, a qualidade do conteúdo apresentado e a forma como este está estruturado, a acessibilidade ao mesmo, a facilidade de utilização e navegação dentro do recurso, a funcionalidade, a interação com o utilizador e o design em si.

Claro que, muito embora estes critérios sejam essencialmente direcionados para professores e educadores, julgo que os alunos devem ter um papel a desempenhar; afinal, serão muito provavelmente os verdadeiros utilizadores dos REO e aqueles que têm tudo a ganhar (ou a perder!) com estes. É evidente que um aluno, principalmente se se tratar de alguém do ensino não superior, dificilmente estará em condições de aferir se o recurso em causa está ou não de acordo com o estipulado em curricula escolares, se os objetivos explícitos são ou não coerentes; a ele interessa-lhe essencialmente o aspeto gráfico, a interação, a facilidade com que navega dentro do recurso. Por isso, dado que professores e alunos abordam os recursos de um ângulo que pode variar substancialmente, convém estar recetivo à opinião destes últimos, de modo a apercebermo-nos de alguns aspetos que podem escapar numa primeira análise. Por exemplo, um REO pode ser muito claro nos objetivos propostos, rigoroso no conteúdo científico, estar de acordo com o estipulado no programa da disciplina, mas os alunos não conseguirem extrair dele o desejado devido a não ser user-friendly.

Daí que Pinto (2005) refira a necessidade de o recurso ser alvo de uma avaliação mista (especialistas e alunos), pois só assim podemos alcançar uma margem de segurança quanto à qualidade do REO avaliado.

No Open Educational Resources Handbook (2008), faz-se uma chamada de atenção para o facto de os professores e educadores deverem estar atentos às reações dos alunos perante os RE como um critério de avaliação, através de inquéritos realizados, procurando detetar padrões de preferência.

Neste aspeto, não sei até que ponto as preferências dos alunos podem constituir um critério válido de avaliação de REO. Se, por um lado, a preferência manifestada é um bom indicador de grau de motivação (pretende-se que um recurso seja motivador!), por outro esta motivação pode dever-se não necessariamente à qualidade do recurso, mas apenas ao design ou ao aspeto do mesmo (colorido, animado…). No entanto, como é óbvio, não se pode ter em conta apenas um aspeto, mas todo um conjunto de critérios, pelo que o feedback dos alunos não será de desprezar.


Referências


Dowson, Nicola (2011). Finding and Evaluating Open Educational Resources, The Open University Library Services

Ministry of Education, British Columbia, (2002). Evaluating, Selecting, and Managing Learning Resources: A Guide

Open Educational Resources Handbook 

Pinto, Maria (2005). Avaliação e Qualidade dos Recursos Electrónicos, Qualidade e Avaliação dos Recursos Educativos na Internet, CRIE, Lisboa
http://www.crie.min-edu.pt/files/@crie/1156760066_CRIE_Lisboa_2005_Maria_Pinto.ppt 

sábado, 17 de dezembro de 2011

Utilizar REA para Actividades Lectivas

Encontrar REA na área de Filosofia é relativamente difícil; seleccionar bons REA neste âmbito é ainda mais, mas encontrá-los, seleccioná-los e enquadrá-los numa actividade lectiva torna-se um desafio ainda maior.
No entanto, os desafios existem para serem superados e este não foi excepção.
Assim, e conforme solicitado na actividade 2 de ARE, procedi aos passos acima descritos e, num primeiro impulso, comecei por elaborar o meu trabalho directamente neste blogue, mas depois pensei: "Se se trata de REA e se estes vão ser usados numa planificação a usar hipoteticamente, porque não transformar este trabalho igualmente num REA, de modo a poder ser adaptado por outros utilizadores e usado de acordo com uma licença Creative Commons?".
Seguindo a filosofia dos REA, elaborar este trabalho num wiki seria, pelo menos para mim, abrir as portas a outros utilizadores, em especial aos da área de Filosofia, para que pudessem usufruir do produto desta tarefa. Resta saber se a intenção corresponde efectivamente ao produto final, mas isso já não me compete a mim julgar...

Aqui fica a hiperligação para o wiki que criei para esse efeito. Espero ser do agrado de todos e que inspire para novas ideias

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Exemplos de fontes ou repositórios de REA

Para os interessados, aqui ficam algumas sugestões para consultas abertas e proveitosas:


(livros e textos editáveis)

(Banco de questões / recursos de diferentes disciplinas)

(Geografia)

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Potencialidades e Desafios dos REA

Quais são os desafios que o uso e a generalização dos REA trazem? Por que razão não possuem ainda uma presença mais expressiva em termos educativos?

Martin Weller (2010) aponta para o desdém ou desconfiança com que habitualmente acolhemos tudo o que seja gratuito ou tendencialmente gratuito “people don’t value free things, or are suspicious of free. We have become accustomed to roughly equating monetary price with value or quality. Free is therefore obviously low quality or suspicious at least” (pág. 7). Criou-se uma associação artificial entre qualidade e preço, isto é, converte-se imediatamente algo em detentor ou carente de qualidade, consoante tenhamos de pagar por ele. Logo, sobre um REA gratuito, recai frequentemente a suspeita de que não é suficientemente bom. Nesta linha de raciocínio, pagar por um REA torna-o mais atrativo, mas elimina a sua essência.

Produzir recursos implica dispêndio de tempo, investimento de esforço e, por vezes, despesas associadas a investigação ou produção. Quem produz, gosta sempre de ver reconhecido o mérito da sua criação e ainda existe um pouco a ideia, nomeadamente entre os investigadores e educadores portugueses, de que as obras ou recursos que criam lhes pertencem, como extensões de si mesmos, olvidando o móbil pelo qual criaram: partilhar com as outras pessoas o seu conhecimento. Alterar isto implica a consciencialização do verdadeiro sentido de educar (to share).

Na mesma linha do ponto anterior, ao decidir partilhar a sua criação, o autor receia perder controlo sobre a sua obra, que esta seja alterada (adulterada?) sem respeito pelo espírito inicial que lhe presidiu ou que terceiros aufiram rendimentos a partir do seu trabalho. Esta postura protecionista constitui um obstáculo à verdadeira noção de partilha.

Mesmo que haja vontade de partilhar sem obstáculos, muitos autores, nomeadamente educadores, não sabem como elaborar recursos com qualidade dado não possuírem competências em TIC suficientes para dominarem ferramentas, software, aplicações, etc… Construir REA pode ser um desafio ainda maior dada a iliteracia digital.

Por outro lado, e partindo do princípio de que os obstáculos anteriores são devidamente ultrapassados, criando-se REA com qualidade, pode dar-se o caso de estarem disponíveis nos canais errados, em contextos desapropriados que não potencializam a sua utilização, como salienta Weller (2010): “Little OER is often placed on third party services which will contain a range of content and people may not have learning as their goal when encountering these resources. This may mean that a different audience is reached, but it may also result in any educational intention in the content being misconstrued or missed” (pág. 7). É o mesmo que disponibilizar um pequeno trabalho de investigação sobre os efeitos do amianto na saúde humana num portal sobre beleza feminina ou sobre desporto. É muito provável que os leitores passem sobre o mesmo, sem lhe dar o devido crédito ou aprender algo.

Havendo REA disponíveis, será que todos sabem onde os procurar? É verdade que, a nível nacional, existem já repositórios abertos, como o Repositório Científico de Acesso Aberto de Portugal (http://www.rcaap.pt/), o Repositório da Universidade do Minho (http://repositorium.sdum.uminho.pt/) ou até mesmo o da Universidade Aberta (http://repositorioaberto.univ-ab.pt/), onde sempre existe uma chancela de qualidade, mas são repositórios vocacionados para o ensino superior e muitas das obras que deles constam podem, quando muito, ser descarregadas mas estão protegidas por copyright. Fora destes repositórios académicos, quais são as alternativas para o grande público e não só? A existirem, qual é o grau de fiabilidade das obras constantes?

Por outro lado, se assumirmos os REA como recursos disponibilizados pelas tecnologias da informação e da comunicação, eliminamos uma percentagem muito significativa de recursos que, embora sem estarem abrangidos por copyright dada a sua antiguidade, não foram ainda digitalizados. Ora, pelo facto de não estarem abrangidos pela noção actual de REA, não deveriam ser encarados como potenciais REA? Wiley (2011) afirma que uma obra, como uma foto, pode ser utilizada para fins educativos, muito embora na sua origem não houvesse esse propósito: ”What photograph could not be made to serve a teaching, learning, or research purpose?”. Se essa foto não estiver disponível digitalizada na Web, mas apenas num livro ou repositório de uma universidade, disponível para consulta, só porque não obedece ao requisito de “sempre disponível, a nível global”, deverá ser descartada? Parece-me que a noção de REA se torna muito elitista, pois se só pode ser aplicada aos recursos disponíveis online, deixa de fora muitos recursos e utilizadores, dirigindo-se a uma faixa ainda restrita da população mundial, sendo mais fechado do que aberto, numa auto-contradição anuladora.

Segundo Yuan, MacNeill e Kraan (2008), um dos desafios para que a utilização de REA seja profícua e duradoura é a de se constituírem comunidades que, longe de iniciativas isoladas, pudessem constituir uma massa crítica de produção de REA: “To make OER initiatives work and keep them for the long run, it is important to first gain and maintain a critical mass of active, engaged users, increase usability and improve quality of the resources created” (pág. 16).
Mas a constituição de tais comunidades implica o abandono do solipsismo criativo que domina o panorama educativo. Produz-se na maior parte das vezes para proveito próprio (professores que criam recursos para as suas próprias aulas), sem espírito de equipa na colaboração e divulgação, por vezes com receio da apreciação alheia e julgamento de pares. Constituir comunidades de produção de REA implicaria uma mudança profunda de mentalidade.

Partindo do princípio de que o uso dos REA se generaliza: qual é o futuro de todos aqueles que dependem economicamente das obras que produzem e/ou editam? Falamos de editoras e dos autores que têm nas obras comercializadas uma parte ou a totalidade do seu rendimento. Teriam as editoras e os autores de se reconverter de modo a adaptarem-se a uma nova perspectiva comercial das obras? Em caso afirmativo, como se daria essa reconversão, sem implicar a sua extinção?


Yuan, Li; MacNeill, Sheila; Kraan, Wilbert (2008). Open Educational Resources – Opportunities


Weller, Martin (2010). Big and Little OER, In Open Ed 2010 Proceedings. Barcelona: UOC, OU, BYU. 

Wiley, David (2011). On OER – Beyond Definitions. Iterating Toward Openness. 

sábado, 12 de novembro de 2011

A Reutilização dos REA

Reutilizar recursos educativos abertos tem um forte impacto no universo educativo, especialmente para professores. Mas muitos não sabem onde encontrá-los ou como utilizá-los.
Este vídeo, intitulado "Open Educational Resources: The Value of Reuse", sob a chancela da Universidade de Oxford, apresenta alguns resultados objectivos sobre a reutilização dos REA por parte de diferentes intervenientes na própria Universidade. Muito interessante!

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Licenciamento de REA - Direitos para criadores e utilizadores II

O licenciamento de recursos educativos abertos através de licenças especificamente criadas para o efeito resolve algumas das questões éticas e legais que se colocam, quer do ponto de vista do autor, quer do ponto de vista do utilizador.
Quem produz materiais, recursos ou obras, gosta de ver apreciado o seu trabalho por outros, mas também reconhecido o direito à sua autoria, o esforço pessoal despendido na sua realização. Ora, se encararmos como condição de existência da cultura e do conhecimento a divulgação, a partilha, o usufruto e a recriação de obras, rapidamente chegaremos à conclusão de que "trancá-las" sob um cadeado de copyright restritivo, muito embora pareça defender os interesses do autor, impede uma ampla divulgação das mesmas e mesmo a sua utilização plena no sentido da criação de novas obras.
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Como teriam sido divulgados, adaptados e rentabilizados feitos científicos ou pensamentos filosóficos, obras literárias, entre outros feitos do passado, se estivessem sob direitos restritivos de copyright? Provavelmente, Einstein nunca poderia usar as teorias newtonianas para refazer a sua teoria da relatividade; Descartes nunca teria chegado às suas provas filosóficas da existência de Deus sem ter podido usufruir do pensamento de alguns autores medievais ou então nunca teríamos chegado ao conhecimento e usufruto da Tabela Periódica se todos e cada um dos descobridores dos diferentes elementos os tivesse patenteado de modo restritivo.
A ideia no licenciamento dos REA é permitir que quem produz veja reconhecidos alguns direitos inerentes à sua criação, mas possa deixar uma margem de liberdade aos utilizadores (por ele definida, consoante o tipo de licença escolhida) para que adaptem, possam ou não usufruir de proveitos comerciais, etc....
As licenças existentes, como as Creative Commons, permitem ao autor escolher o uso futuro dado à sua obra. Deste modo, confere-lhe um certo grau de liberdade, sem a qual seria muito mais difícil não só abordar o próprio conceito de "Recursos Educativos Abertos", como o de encarar a noção de conhecimento em si.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Licenciamento de REA - Direitos para criadores e utilizadores

Licenciar REA implica respeitar ambos os lados da questão: quem cria e quem utiliza.
No primeiro caso, quem produz recursos quer difundi-los, quer reconhecimento ou simplesmente contribuir para a difusão de cultura; no segundo caso, os utilizadores querem o máximo de liberdade na exploração dos recursos disponíveis, e isso inclui descarregar da Internet, adaptar, difundir ou até mesmo obter proveitos comerciais.
David Wiley, numa brevíssima apresentação, aborda esta dicotomia de direitos:

David Wiley Introduces Unit on OER Licensing from LearniT-TeachiT on Vimeo.